quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A Igreja em silêncio


Por Adelino Francisco de Oliveira*

O anúncio público da renúncia do Papa Bento XVI lançou sobre o universo cristão católico certa perplexidade e profundo silêncio, não deixando de suscitar várias questões tanto para a própria Igreja em particular, mas também para o mundo em geral. A renúncia de um papa é fato raro na longa história da Igreja, apesar de estar em consonância com as diretrizes do Direito Canônico (Cân. 332, §2). Todas as abdicações papais anteriores estão intrinsecamente relacionadas com períodos de grandes crises no seio da Igreja. É preciso ler e interpretar a renúncia de Bento XVI na perspectiva dos sinais dos tempos, a partir do momento teológico que a Igreja vive.

Em um contexto geral de cultura relativista, de claro avanço de filosofias hedonistas e niilistas, a Igreja também sofre as dores do mundo, inclusive internamente no cotidiano das estruturas eclesiais e religiosas. A miséria material e espiritual acaba por definir a existência de milhões de pessoas, mesmo em um universo em que o cristianismo se compõe como a maior religião em número de adeptos. Um cristianismo, em sua diversidade de igrejas, cada vez mais distante da ética de sumo amor e serviço de Jesus Cristo, revelada em sua proposta de abundância de vida para toda a humanidade.

O ato voluntário da renúncia do pontificado de Bento XVI está revestido de um significado profundo, contemplando representações simbólicas, a comunicarem uma importante mensagem ao mundo católico. É preciso se aproximar do sentido de tal renúncia tomando uma ótica complexa. Para além do fato objetivo da renúncia de Bento XVI, desdobram-se alguns aspectos, conjecturas fundamentais de conteúdo teológico, a serem corroboradas pela história.

É necessário, antes de qualquer ponto, se considerar, contemplar o perfil pessoal de Papa Bento XVI. De postura mais intimista, introvertida, o Papa Ratzinger é sobretudo um homem do pensamento profundo,  essencial. Seus escritos revelam um conhecimento teológico denso e elevado, apto a resgatar elementos de uma tradição cristã genuína, originária. Talvez a forte dimensão intelectual, a alta teologia, de concepções e convicções claras e elaboradas, configure-se como um impedimento para um fazer muitas vezes marcado por rotinas administrativas, burocráticas, pragmáticas, distantes de concepções teológicas elevadas, avessas a concessões a todo relativismo contemporâneo.

A renúncia ao múnus petrino não deixa também de contemplar uma postura de total despojamento, de abdicação do poder. Talvez Bento XVI coloca-se livre perante o fascínio, deslumbre que o poder é capaz de produzir. O gesto de renúncia ao múnus de Pastor supremo da Igreja pode desvelar a profunda convicção acerca de um poder que somente alcança sentido quando for totalmente serviço, a Deus e à humanidade. Sem as condições físicas e espirituais para servir, o poder passa a ser vazio, desprovido de qualquer representação, significado.

Tal gesto não deixa de conter, contemplar uma profunda dimensão de humildade e desprendimento. Reconhecer as próprias limitações diante de uma missão que é urgente, monumental, divina configura-se como postura, arraigada no senso de profunda responsabilidade, sensibilidade, humildade. O renunciar ao chamado pode justamente possibilitar o avançar, a realização da missão, a via para se alcançar o êxito, sempre cônscio de que quem guia de fato a Igreja é o próprio Jesus Cristo.

Todavia, sugere-se um prisma conjectural a ser vislumbrado. A dimensão da fraqueza, da angústia humana diante de uma missão revestida de sacralidade, de total entrega. Há uma bela tradição apócrifa, registrada na obra Quo Vadis, de 1895, do escritor polonês Henryk Sienkiewicz (1846-1916), que conta uma pseudo aparição do próprio Jesus Cristo a Pedro, quando este deixava Roma com o intuito de escapar da terrível perseguição do imperador Nero. No caminho de fuga, Pedro teria se deparado com Jesus caminhando em direção a Roma. Encontrando Jesus, Pedro teria indagado: Aonde vais, Senhor? (Quo vadis, Domine?). Jesus teria respondido a Pedro: Vou para Roma, ser crucificado outra vez, pois você está a abandoná-la. Diante de tal visão, Pedro refaz o caminho de volta a Roma, entregando-se à missão até o martírio.

Em todo caso, muito além de qualquer conjectura ou cenário, a renúncia do Papa Bento XVI pode representar um contundente sopro de renovação, capaz de suscitar um momento novo na Igreja. A concepção teológica a transmutar o poder em entrega, serviço a Deus e ao próximo deve prosperar no seio da comunidade cristã, especialmente em dinâmicas mais presas, enclausuras a hierarquias. A difícil experiência do reconhecimento das fragilidades, debilidades inerentes ao humano pode se compor como expressão de notória humildade, suscitando uma Igreja mais fraterna, solidária, receptiva a estruturas mais colegiadas, comunitárias, democráticas.

A sensibilidade que brota da aceitação das limitações humanas pode promover uma profunda renovação espiritual, abrindo a Igreja a um sincero diálogo com as questões fundamentais do contemporâneo. Fundamentalmente, que a renúncia de Bento XVI componha-se menos como um gesto de ausência de coragem, mas como uma decisão teologicamente articulada para lançar, impulsionar a Igreja a um movimento de maior aproximação, em fidelidade criativa, ao projeto de amor que Jesus Cristo revelou à humanidade e confiou à Igreja, povo de Deus. Para além do silêncio descortina-se a serena esperança.

* O Autor é teólogo, filósofo, professor universitário e doutorando pela Universidade de Braga/Portugal – onde pesquisa acerca do Evangelho de João.

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